Há meses que ando para escrever isto, mas tornei-me momentaneamente info-excluído, algo que foi reparado há apenas uma semana…
Vou contar um segredo à RTP, que aparentemente ninguém naquela casa sabe: uma estatística é um meio e não um fim. Apresentar números sem os contextualizar é o mesmo que, sei lá, dizer que o Huckleberry Finn é uma obra racista e que se deviam alterar os termos mais ofensivos para uma linguagem politicamente correcta.
Isto a propósito daquela rubrica do telejornal que apresentava um retrato da evolução do país com base nos dados da plataforma Pordata, um programa chamado “Nós Portugueses”, e que continua disponível no site da Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Foquemo-nos no capítulo sobre Construção:
- Em 1990 havia 21.688 empresas de construção civil que empregavam directamente 210.133 pessoas. Em 2009 existiam 107.536 empresas de construção civil que empregavam 472.730 pessoas. Mais do dobro! Mas espera, isso não significa também que a média de empregos directos por empresa baixou entre 1990 e 2009 de 9,7 para 4,39? E o que terá acontecido entre 1990 e 2009 para este aumento de trabalhadores da construção civil? Talvez uma Exposição Mundial, talvez um Campeonato Europeu de Futebol, talvez a internacionalização das empresas de construção, talvez a entrada de fundos comunitários aplicados em infraestruturas? Será, Alberta Marques Fernandes? Vamos ver a explicação? Nada.
Entre 1961 e 1970 construíram-se 49.142 habitações novas (serão fogos? serão apartamentos? serão moradias? Gente não é certamente e a chuva não bate assim), mas nas décadas seguintes construíram-se sempre mais de 70.000 habitações/década.
Uau! A sério? E isso quer dizer exactamente o quê? Aos olhos do Nós Portugueses, quer dizer que “se há mais oferta, há certamente mais procura”, invertendo aquilo que é por norma uma das bases de toda a teoria económica. Também quer dizer que a populaça se endividou para adquirir estas habitações. Mas porque é que isto aconteceu? Terá sido das políticas de habitação? Terá sido consequência do desenvolvimento e enriquecimento do país com a entrada na CEE? Terá sido por, entre 1961 e 1970 haver um défice de habitação no país, levando muitos trabalhadores com empregos e salários estáveis a viver em bairros de construção clandestina? Terá sido do congelamento das rendas? Não haverá dezenas de milhar de fogos abandonados? Uma explicação? Vá lá? Sim? Não.
Acaba o programa com a seguinte tirada: segundo o banco de Portugal, existem neste momento cerca de 2 milhões e meio de créditos à habitação por saldar em Portugal o que quer dizer que, segundo o guionista do programa,um quarto da população portuguesa está endividada.
Como refutar estes números? De tantas maneiras, começando pela mais simples: se eu comprar casa com a minha namorada, isso conta só como um crédito contraído por duas pessoas. A não ser que os senhores do Pordata tivessem cruzado o número de empréstimos com o número e tipo de contraentes de empréstimo, essa estatística é mentira.
Este programa tinha tudo para ser um interessante estudo sobre as consequências das mais diversas políticas seguidas nas últimas décadas, mapeando o que correu bem e mal (e no sector da construção e da habitação haveria tanto, tanto para dizer…) mas decide ficar-se pelo soundbyte de imaginar os portugueses como uns pilantras que se endividam porque sim.
Contra factos não há argumentos.